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segunda-feira, abril 26, 2004



O MUNDO EM MINHA BOCA


No começo, só dormir e mamar. Depois, uma tímida maozinha chega aos lábios. Com alguns meses de treinamento, a criança jà está mais do que preparada para analisar, com a boca, qualquer objeto. Um mundo novo e sedutor que vai sendo descoberto e explorado. Aí, coitados dos brinquedos que caírem em suas mãos...



Primeiro, um dedinho na boca, depois a mãozinha, o dedo do pé ou o pé inteiro! Cenas como essa são comuns até um ano de idade. Ao colocar os objetos na boca, o bebê aprende a interagir com o mundo, desenvolvendo seus sentidos e emoções. Nos dois primeiros meses de vida, além de mamar, ele primeiro suga o dorso da mão, explorando cada centímetro. Assim, inicia seu aprendizado de conduzir os objetos à altura dos lábios, coordenando os movimentos dos braços (experiência motora) com a sensação agradável de colocar a mão (ou o dedo) na boca. Além disso, segundo vários estudos, os bebês se acalmam enquanto chupam o dedo e outras partes da mão. As mamães se divertem, mas, às vezes, ficam preocupadas, pensando que ele está com fome. Mas nem sempre é esse o motivo. Ele está usando e abusando do reflexo de sucção, que é importantíssimo, pois é assim que a criança vai se alimenta também nesse período que ele vai começar a construir suas emoções


Desenvolvimento psicológico

Segundo a psicologia, a chamada fase oral, que é mais marcante até os três meses, mas que dura para sempre, é fundamental por toda a vida. Quando o bebê nasce e, após o primeiro choro, volta a dormir, só vai acordar quando, pela primeira vez, sentir fome. Pela boca, a criança tem sua primeira relação com o mundo externo. Começa a conhecer a vida pela boca, através da mamada e da mãe que, fundamentalmente, vão fornecer seus primeiros registros cenestésicos (memória cenestésica - inconsciente - da qual não lembramos). Esses registros são viscerais, como a fome, a vontade de urinar. Por exemplo, quando uma pessoa diz que sente sempre um vazio na barriga, isto está relacionado a uma falta nesta fase. Por isso, é fundamental, assim como o papel da mãe. São as únicas coisas com as quais o bebê "se preocupa", uma vez que ainda não se lembra de nada, apenas das suas necessidades. E o início da sua percepção do mundo. Somente após os dois anos é que o bebê forma um conceito de identidade e começa a guardar lembranças (memória evocativa).

Pelo menos até os 3 meses a mãe, através da mamada e dos cuidados, é o mais importante elo entre a criança e o resto do mundo. Nos primeiros meses esses são os únicos contatos da criança, quando não está dormindo. Um bebê, no primeiro mês, acorda apenas para mamar. A criança começa a criar a noção de que ela não se basta sozinha e que, à medida que sente fome, depende sempre de alguém para suprir suas necessidades. Daí a importância da relação da mãe com o bebê: ele tem a necessidade do leite e uma carência de afeto que ela deverá suprir.
A partir daí, ele vai construir seu mundo através dessa relação.

O bebê não suga apenas o alimento, mas também a emoção de quem lhe fornece alimento. Principalmente da mãe. Se ela está tensa, alegre, triste, animada, ansiosa, nervosa, feliz, relaxada, enfim, o estado em que estiver, vai ser captado e registrado pelo bebê na sua memória cenestésica. Toques, carinhos, cuidados são muito importantes nessa fase, mas o fundamental é o clima da mãe. Se este não for bom, o desenvolvimento psicológico não será adequado, pois são estas as primeiras impressões que a criança vai registrar do mundo. Isso vai influenciar diretamente nos relacionamentos futuros.

Se a mãe transmite uma sensação de aceitação, proteção e segurança, estará favorecendo o desenvolvimento psíquico da criança, que vai se sentir mais segura e preparada nas situações que enfrentará no futuro. Mas, se o bebê captar rejeição e ansiedade, tenderá a ter maiores problemas nas futuras relações pessoais. Quanto mais bem cuidado, de modo acolhedor, estará mais capacitado psicologicamente. Por isso, a importância dessa fase. Quando a criança não tem o registro de satisfação psicológica nessa fase, tenderá a ser uma pessoa mais insatisfeita com os outros e com a vida. Ao mesmo tempo, é importante que a mãe não fique ansiosa para dar comida aos primeiros sinais de fome, por exemplo.

Muitas vezes, ela mama até a saciedade, mas continua chorando. Ou continua a mamar mesmo depois de estar saciado. Isto ocorre porque a satisfação física difere da satisfação psíquica, apesar de se relacionarem. Não basta saciar a fome da criança, se ela se encontra num ambiente tenso ou está carente de afeto. O afeto ou a tensão são captados pelo bebê, principalmente na hora da mamada. Esse clima captado é que vai garantir, ou não, os registros psicológicos de satisfação e de insatisfação, tão essenciais para o desenvolvimento psicológico da criança.
A mãe precisa ter a sensibilidade de perceber como está se sentindo, para tentar passar o melhor possível para o filho. Depois dessa fase, e de outras duas que se seguirão até os dois anos, ele começa a criar a noção de identidade psicológica (o Eu) e noção de identidade corporal.

Desenvolvimento neurológico

Aos três, quatro meses, o bebê já está preparado para levar, com mais frequência, sua mãozinha aos lábios. Para orgulho (e desespero) dos pais, também começa a segurar objetos e a sugá-los. Inicialmente é uma ação motora acidental: no que a criança vai conduzir a mão à boca, em vez de encostá-la, põe sem querer o objeto. E descobre que essa experiência é agradável, passando a repeti-la várias vezes. As terminações nervosas da boca levam ao cérebro do pequenino todas as impressões recolhidas quando entram em contato, por exemplo, com o seio materno, a mamadeira, a mãozinha. Pouco a pouco o bebê se torna capaz de diferenciá-los, escolhendo o que quer e o que não quer. Nessas descobertas a criança enriquece, progressivamente, a visão de si mesmo, construindo, pouco a pouco, a percepção de um eixo corporal.

Coordenação motora

De tanto treinar, por volta dos cinco meses, nosso explorador-mirim adquire uma coordenação buco-manual perfeita, ou seja, está apto a levar qualquer objeto à boca. Segura o chocalho e demais brinquedos com mais firmeza. Nessa idade, o bebé normalmenteconsegue realizar todas as proezas quando está de barriga para cima. De bruços, também pode alcançar os objetos, mas, sentado, ainda não é capaz de pegá-los. Isso só será possível aos sete meses, quando já possuir o equilíbrio necessário para sentar com apoio. Com essa liberdade conquistada, a criança vai até o brinquedo mais próximo, suspende-o e, mantendo essa coluna ereta, coloca esse objeto na boca. Não satisfeita, ainda pode batê-lo no chão para escutar os barulhos produzidos.

Com oito meses, o bebê não precisa mais do apoio das mãos para permanecer sentado e pode se deslocar em movimentos laterais. Engatinhando, vai atrás dos brinquedos e os põe na boca. Ele só solta sua presa quando encontra outra vítima mais interessante. Aos dez meses, a criança fica de pé e quer conhecer o mundo, isto é, todos os cômodos da casa. Essa é a hora dos pais tirarem do alcance dos lábios do pequeno os objetos que ofereçam algum perigo.

Com um ano, ele pode andar. Consegue também se abaixar facilmente para pegar qualquer objeto. Nessa época, já desenvolveu as principais funções motoras, do simples rolar até o tão esperado caminhar. Aqui é importante destacar que cada fase do crescimento é diferente. Por isso, o bebê precisa aprimorar sua motricidade buco-manual constantemente, ou seja, tem de coordenar os movimentos de conduzir a mão à boca a toda nova aquisição motora. Não é porque aprendeu a pegar os objetos de bruços, ou a sugar de barriguinha pra cima, que possa fazer tais façanhas sentado.

Independência e fala

As conquistas motoras do bebê ocorrem paralelamente ao seu desenvolvimento cognitivo (intelectual) e afetivo. Não dá para separar o lado motor das emoções e dos processos de construção da inteligência. No entanto, muitos pais não sabem que morder os brinquedos e guiar a mão até os lábios é brincadeira séria, que traz muitas vantagens.
A principal delas é a independência: a criança ganha a coordenação motora necessária para, futuramente, ser capaz de levar biscoitos à boca, manejar os talheres, enfim, de alimentar-se sozinha. Ela também se prepara para fazer outras atividades importantes, como escovar os dentes.
Ao colocar mil e uma coisas na boca, a criança desenvolve a motricidade dos lábios, da bochecha e, é claro, da língua. Além disso está se exercitando para adquirir fala e linguagem. Afinal, para aprender a falar, é preciso aperfeiçoar a motricidade dos músculos da região bucal. Depois, o pequeno junta essa vivência motora com a compreensão e faz a linguagem.
Sem essa experiência, ele poderá apresentar algumas dificuldades ao pronunciar as primeiras palavras. Quando suga, o bebê começa a coçar as gengivas. Ao contrário do que muitos pais pensam, esse é um hábito saudável: a criança que esfrega as gengivas com frequência acaba rompendo-as com poucos problemas para o nascimento dos dentes.

Descobrindo o mundo

No primeiro ano de vida, como é que o bebê descobre o mundo, constrói sua inteligência? E justamente através da exploração dos objetos, o que inclui partes do seu próprio corpo e dos adultos. A criança também está vivendo, sensitivamente, a mão do outro. Se pudesse se expressar por palavras, exclamaria: "Hum! Essa mão é diferente da minha!" Na hora em que está sugando sua mão, ela experimenta uma dupla sensação: o prazer na mão e na boca. Se for a mão de outra pessoa, o pequeno sente apenas o prazer oral. Então, essas distinções passam a ser feitas na sua cabeça. A medida que a criança vai evoluindo motoramente, a sucção perde terreno. Quando aprende a sentar, por exemplo, vê o mundo com outros olhos. O mesmo chocalho oferecido ao bebê deitado toma outra feição quando ele está sentado. Agora, não precisa mais só sugar. Pode ver os objetos antes.
Se o neném estiver bem emocionalmente, sempre aprimorando suas funções motoras, a tendência é que a sucção seja mais um modo, e não o único, de descobrir o mundo. Afinal, ela vai sendo, pouco a pouco, substituída por outras habilidades, como a visão e o tato.

Saúde e Segurança

Para os pais, os progressos do bebê sempre são motivo de alegria. Mas é preciso atenção em relação aos objetos que rodeiam a criança e à higiene. Uma caixa de costura aberta, com agulhas, alfinetes e botões brilhantes e coloridos, por exemplo, é algo extremamente perigoso e sedutor. E importante que a mamãe fique atenta e vá conferindo, a cada passo, tudo o que ele está tentando pegar, pois certamente irá parar na boca: parafusos, bolinhas de gude, remédios, lâminas de barbear. Isso também vale para os mais crescidinhos, que também aprontam das suas. Se acontecer da criança engolir algo, não se afobe. O primeiro passo será a localização do objeto, através de um exame de raios X. Mesmo ele estando bem, leve-o ao Pronto Socorro ou ligue para o pediatra, pedindo orientação. Antes disso, não tente usar cotonetes, pauzinhos, pinças ou os dedos para retirar o corpo estranho. Você poderá complicar, ainda mais, a situação. A criança deve ficar sob observação cuidadosa e prolongada, pois alguns corpos estranhos não são identificados pelo raios X. As vezes, os objetos vão se alojar nos pulmões. E necessário fazer, então, uma broncoscopia a fim de localizá-los e retirar o mais cedo possível. Antes do socorro médico, você só deve interferir caso a criança esteja mal, sufocada, com o rostinho azulado, tossindo.

Para isso, existem manobras especiais, chamadas Manobras de Heimlich. Elas criam uma pressão interna positiva, provocando a saída do objeto retido. Mesmo se não conseguir resultados na primeira tentativa, não desista. E o melhor meio de tentar resolver o problema até chegar ao Pronto Socorro. Existem dois tipos de manobras: um para bebês pequenos e outro para crianças maiores. Essas manobras podem salvar a vida deles e, em alguns países, fazem parte de treinamento obrigatório para leigos. Prevenir é muito fácil. Os pais devem fazer uma alteração nos seus hábitos para nunca deixar, por exemplo, o vidrinho de remédios coloridos em cima da mesa, ou os parafusos no tapete da sala. Reorganizar a disposição da mobília e dos eletrodomésticos para facilitar, sem perigo, a movimentação da criança. Essas medidas vão evitar que certos objetos como canetas, grãos, pilhas (muito perigosas, pois contêm substância altamente tóxica), clipes de papel, entre outros, sejam deixados soltos pela casa, ao alcance fácil dos mini-exploradores. E importante também que a mamãe mantenha as mãos do bebê sempre limpas, a fim de evitar possíveis infecções e doenças, que podem ser transmitidas pelo contato destas com a boca.

Colaborou Rafael Millon
Consultores: Dr. Eric Schussel, psicoterapeuta e pediatra, presidente do dep. de Saúde Mental da SBP e Dra. Tânia Saad, neuropediatra


Artigo retirado da Revista Pais e Filhos
Ano 33 n°393


:: Por Kaluna | 10:58 | :: Comments:


terça-feira, abril 06, 2004

Hj é anivaersário da Rebeca!!
Felicidades, muitos anos de vida e muuuuito fôlego pra cuidar do Breno e os irmãozinhos q vierem!!!

:: Por Marcia Ajiki | 01:17 | :: Comments: