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sexta-feira, maio 21, 2004
Doces sonhos
Nos primeiros meses de vida, o bebê passa metade do tempo em que dorme sonhando.
Iracy Paulina
Olha, ele está sonhando com os anjinhos! Essa é a frase clássica que os adultos usam para explicar por que o bebê, dormindo, dispara aquele sorriso encantador. Será mesmo que desde pequeno ele sonha? Com o que sonharia? Para que serviriam esses sonhos?
Não existem pesquisas conclusivas para responder a essas perguntas e quem poderia falar com mais propriedade sobre o tema, o próprio sonhador, ainda não domina as palavras. Mas neurologistas, psiquiatras e psicólogos levantam algumas hipóteses a esse respeito.
Os indícios mais concretos são apresentados pelos neurologistas que estudam o sono. "Os sonhos acontecem num estágio do sono que chamamos de REM", explica Rubens Reimão. REM é a sigla em inglês para Movimento Rápido dos Olhos, característica observada nas pessoas quando elas atingem esse patamar de repouso. Enquanto dormimos, alternamos fases de sono não-REM com o sono REM. Na primeira fase, a não-REM, as ondas cerebrais vão desacelerando. Na REM elas aceleram novamente, e o cérebro passa a trabalhar quase que no mesmo ritmo de quando estamos acordados. Tudo isso é medido por um exame, o eletroencefalograma, e pela observação da movimentação dos olhos e do grau de relaxamento muscular de quem dorme.
Sono REM
Contrapondo os resultados desses exames com o relato das pessoas estudadas, verificou-se que é na fase REM que acontecem os sonhos. "Os bebês, inclusive os prematuros também têm sono REM, como provam vários estudos. Isso nos leva a acreditar que mesmo antes de nascer, ainda no útero, eles já sonham", observa Reimão.
Logo após o nascimento, cerca de 50% das l6 horas diárias dormidas pela criança são de sono REM. À medida que ela cresce, esse porcentual vai caindo. "Por volta dos 2 anos, a média de sono REM fica em 30%, contra os 20% dos adultos", compara a neuropediatra Márcia Pradella-HaIlinan.
Revendo experiências
Mais complicado é descobrir o que ocorre dentro da cabecinha dos bebês quando estão na fase REM do sono. Para o neurofisiologista Fernando Pimentel de Souza, nos primeiros meses de vida, os sonhos que as crianças têm são muito diferentes dos de um adulto. "Em vez de sonhar, o bebê 'vive' a herança genética de seus antepassados. É como se ele estivesse se submetendo a um cursinho rápido de como ser gente, repassando mentalmente toda a carga de movimentos e comportamentos herdados de seus ancestrais", diz Souza.
Sonhar ajuda a consolidar a memória
Outra corrente de especialistas acredita que, embora os primeiros conteúdos sejam diferentes, o mecanismo de construção do sonho nos bebês é igual ao dos adultos. "Nos sonhos, as pessoas revivem suas experiências, misturando o que aconteceu no dia anterior com coisas do passado remoto", diz a neuropediatra Márcia Pradella-HaIlinan. Esses sonhos são alimentados principalmente por imagens que captamos através da visão, experiências motoras, sons e odores. Nos bebês, o sentido visual é um dos primeiros a se desenvolver. "O bebê dirige a cabeça para objetos brilhantes ou vermelhos já na primeira semana de vida. E, provavelmente, seus sonhos são formados de luz e cores", observa Márcia.
Daí para diante, o repertório vai se ampliando à medida que aumentam suas aquisições e vivências. Passam, então, a povoar a mente do pequeno dorminhoco os objetos que ele seguiu com o olhar curioso durante o dia, as brincadeiras com a mãe, sua própria imagem que já reconhece no espelho. Dos 6 aos 9 meses, com o sentido da visão mais aprimorado, ele começa a enxergar em profundidade: já pode, a partir daí, sonhar em três dimensões.
Imagens e sensações
Alguns estudiosos defendem a tese de que os primeiros sonhos dos bebês independem de imagens. "No início, eles refletem mais sensações de aconchego, plenitude, fome, abandono ou outros sentimentos provocados por situações pelas quais a criança passou enquanto estava acordada" , diz a psicóloga Rosane Landmann.
Há quem vá ainda mais longe e afirme que os sonhos do bebê incorporam também o que o pequeno sentia quando estava na barriga da mãe. A criança revive climas e sensações da vida intra-uterina. "São lembranças que ela traz registradas na memória. Há casos em que, por volta dos 3 anos, quando já consegue se expressar, a criança relata, com muita naturalidade, alguns detalhes dessa etapa como, por exemplo, o fato de que lá dentro (da barriga da mãe) tinha água", afirma a psiquiatra Maria José Franklin. "É também a partir dessa idade que a criança começa a separar a realidade do sonho, coisas que o bebê confunde", explica a psiquiatra Cecília das Neves Assumpção.
Uma forma de aprender
O sonho do bebê não é só fantasia: tem lá seus efeitos práticos. "As pesquisas mostram que ele desempenha um importante papel na organização do sono", diz o pediatra e psiquiatra Wagner Ranna. "Qualquer pessoa que não passe pelo estágio do sono REM dorme mal", afirma. Ranna transpôs esses conhecimentos para o tratamento de bebês com insônia. "A observação clínica dessas crianças insones nos leva a crer que elas não conseguem sonhar direito", explica o pediatra. Se isso persistir, por volta dos 2, 3 anos elas serão sérias candidatas a apresentar dificuldades no desenvolvimento ou comportamentos de hiperatividade.
Sonhar também é uma forma de aprendizagem. "O sonho ajuda a consolidar a memória", afirma o neurofisiologista Fernando Pimentel de Souza. É através dele que selecionamos o que vamos aprender. Ao passar em revista o que viveu, o cérebro escolhe quais as informações que serão gravadas na memória e quais serão jogadas fora —um processo seletivo que tem a ver com o impacto emocional daquelas experiências. “Para o bebê, portanto, o sonho é o momento no ele processa e apreende as intensas descobertas que está fazendo” afirma a neuropediatra Márcia Pradella-HaIlinan. "Uma das hipóteses que explica por que o bebê tem uma quantidade maior de sono REM é essa: ele precisa elaborar o grande de volume de informações que recebe nos primeiros meses de vida complementa o neurologista bens Reimão.
OS PESADELOS
Não são apenas coisas boas que povoam os sonhos dos bebês. “Quando eles são submetidos, durante o dia, a experiências desagradáveis, como ficar expostos a ambientes barulhentos e estranhos, por exemplo, à noite podem acordar sobressaltados, chorando, ao relembra-las”, descreve a psicanalista Maria Cecília Proença da Silva
Dores ou desconforto do corpo, como cólicas ou fome, também costumam se misturar aos sonhos, transformando-os em pesadelos : E isso não tem nada a ver com terror noturno, um distúrbio do no que costuma aparecer em crianças a partir dos 3,4 anos.
"O pesadelo serve para digerir estímulos negativos", conta a terapeuta. Apenas se eles se repetirem com muita freqüência, atrapalhando o bom andamento sono da criança, pode ser necessário um acompanhamento terapêutico. Nesses casos, segundo Maria Cecília, cerca de quatro sessões com a criança e os pais costumam ser suficientes.
Entrevistados: Cecília das Neves Assumpção, psiquiatra especializada em crianças; Fernando Pimentel de Souza, neurofisiologista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais; Maria Cecília Proença da Silva, psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise;
Maria José Franklin, psiquiatra e professora da Universidade de Campinas, SP; Márcia Pradella-HaIlinan, neuropediatra do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo/Unifesp; Rosane Landmann, psicóloga, São Paulo; Rubens Reimão, neurologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo; Wagner Ranna, pediatra e psiquiatra do Instituto da Criança da Universidade de São Paulo.
Revista Crescer, ano 8 nº 85, dezembro de 2000
:: Por Kaluna | 19:54 | ::
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